Nadar não é uma das características humanas. O homem precisa aprender, ou melhor, despertar em sua memória primitiva essa forma de se locomover na água, desenvolvendo um substrato neurológico para sobreviver no meio líquido.
Se para qualquer pessoa essa arte deve ser desenvolvida, para as pessoas portadoras de dificuldades especiais os caminhos dessa aprendizagem são muitas vezes adaptados e modificados para a aquisição dessa habilidade. Muitas procuram a piscina para um trabalho reabilitador, sendo necessário diferentes recursos tanto para entrar como para sair da piscina.

Em nosso caso, iniciamos sempre um atendimento terapêutico psicomotor individual, no sentido de criarmos uma nova arquitetura psicomotora e estruturarmos sua adaptação á água.

Passada essa fase, nosso objetivo seria uma natação adaptada, criando estratégias de aprendizagem através de um processo pedagógico adequado aos portadores de dificuldades e/ou comprometimentos físicos, mentais e/ou sensoriais, com desajustes psíquico-emocionais decorrentes dos mesmos. Em parceria com um profissional de educação física, elaboramos um programa de intervenção específico para cada turma e aluno.

Nem todos os casos são indicados para uma natação adaptada. Muitas vezes existem comprometimentos inibidores dessa prática; mas uma grande maioria, além de recomendado é altamente benéfico esse programa, tendo em vista o fator sócio-emocional no convívio com o grupo de pessoas, com deficiências variadas.

Quando observamos o outro fazemos imediatamente um paralelo conosco e muitas vezes o balanço é extremamente positivo.

Esse planejamento de natação adaptada é elaborado com simplicidade e clareza de propostas e com programa pedagógico e terapêutico que atenda todas as necessidades individuais dos alunos, obedecendo uma técnica adequada e a metodologia psicomotora.

Da entrada à saída da piscina até a utilização de materiais, que é utilizado somente como recurso nas movimentações, tudo é adaptado e individualizado, sempre respeitando-se os comprometimentos específicos de cada aluno.

Os grupos de trabalho não devem ultrapassar 3 alunos para cada profissional, que por sua vez deverá ser especializado e extremamente sensível no trato dessas pessoas, pois no menor deslize ético ou técnico poderá promover grandes traumas e emoções negativas. Ele deve oportunizar a auto-expressão e a criatividade, respeitando as diferentes condições e níveis de desenvolvimento de cada aluno.

O ambiente da piscina e da aula deve ser sempre alegre e prazeroso, promovendo a socialização do grupo, melhorando assim a auto-confiança social, comportamental, emocional e funcional de cada um. A temperatura da água já não é tão aquecida como num processo terapêutico individual, o ideal seria de 30º C a 32º C , com duração de 45 minutos a uma hora de aula.

As etapas seguem as mesmas de uma aprendizagem regular, somente com adaptações no tempo, nas propostas, na execução dos exercícios e na cobrança de resultados:

Ambientação - é um momento de socialização, onde cada um faz frente às necessidades do outro, ajudando-o e sendo ajudado, num clima de amizade e alegria.

Equilíbrio
- andar e se manter em pé na piscina é sempre uma primeira grande vitória, pois dessa forma já estamos vencendo um dos grandes desafios da água ­a redução de nosso peso corporal.

Respiração - fase mais importante da aprendizagem, pois o processo respiratório é um dos fatores básicos da propriocepção e da coordenação geral.

Flutuação - o domínio do corpo na água é um processo demorado para essas pessoas especiais, pois depende do seu nível de consciência corporal e de sua capacidade de relaxação.

Propulsões Variadas - todo deslocamento é válido e considerado muito importante, haja visto a dificuldade motora de cada um. Sempre priorizamos a não utilização de acessórios e materiais para forçá-los a uma autonomia. Quando muito necessário priorizamos o auxílio do professor, que se coloca corporalmente à disposição.

Sustentação - é a etapa de sobrevivência onde cada um utiliza dos próprios recursos para realizá-la, não havendo cobranças nem regras.

Imersão - para imergir e necessário que o aluno esteja com seu processo respiratório totalmente bem vivenciado e vencido, somente assim conseguirá manter um bom tônus muscular e controlar a respiração.

Os nados são totalmente adaptados. Cada uma dessas pessoas terá o seu próprio estilo, que será valorizado e reconhecido.


Crawl - nado com movimentações alternadas de braços e pernas.

Costas - posição mais confortável em relação a respiração, mas que apresenta dificuldades para alguns em relação as movimentações de braços.

Peito - neste nado são realizadas várias adaptações em relação as movimentações de braços e pernas. Algumas vezes os comprometimentos físicos inibem a movimentação simultânea de membros.

Borboleta - o mais difícil de ser atingido, pois necessita de força, ritmo e coordenação, o que sempre se encontra alterado nessas pessoas.

A melhoria da imagem corporal e da auto-estima acontece a cada aula e a evolução das habilidades seguem sempre um patamar ascendente. Nunca devemos exigir perfeição técnica, mas sim considerar uma grande vitória qualquer novo desempenho de cada um.

Nossa missão com esse programa é a de tornar cada deficiente que nos apresenta ciente de suas eficiências, isto é, um vitorioso por natureza e a quem devemos muito nos espelhar, pela garra, pela perseverança, pelo esforço e principalmente pelo amor a vida que nos ensina.