Ser bom “virou” moda!

É lamentável, mas importante aspecto que vivemos agora, que gostaria de refletir com os leitores desta Revista, já que estamos no mundo corporativo e como empresários devemos ter consciência de que seres humanos somos.

Trabalhando no terceiro setor já há alguns anos, sintimo-nos à vontade para abordar a febre que está tomando conta das pessoas.

Temos uma enorme dificuldade de admitir nossos erros, mentiras e vilanias, até mesmo nossas pequenas e grandes malvadezas. No geral, sempre achamos que os outros estão errados, enganados, que somos vítimas de injustiça e nos achamos cheios de razão. Esse mecanismo de defesa é primitivo de nosso ser, porque dói muito não se reconhecer bom, leal e confiável.

Hoje praticar o bem é obrigação dos “bons” humanos. No entanto posturas de nosso cotidiano demonstram situações de nítida desigualdade ou preconceito: – compramos camisetas de campanhas, escolhemos produtos com selos verdes e participamos de eventos cuja renda é destinada a alguma entidade assistencial, mas desconhecemos em que medida tais instituições se comprometem com verdadeiras mudanças estruturais.

Só a nossa boa intenção não basta, isso só demonstra superficialidade, um modismo absoluto. Fica evidente um não comprometimento com mudanças profundas nas estruturas sociais, políticas e econômicas.

A banalização do bem gera a banalização do mal. Sem querer, com nossas pequenas ações bem intencionadas, mas ineficazes, somos capazes de provocar mais mal que bem.

Fazer o bem requer saber o que o outro precisa e não impor a ele o que queremos dar. Precisamos respeitar os valores, os saberes e o modo de viver do outro. Praticar o bem e a caridade não pode estabelecer um jogo de poder, onde quem dá tem o direito de ditar as regras  e de fazer do que recebe um eterno devedor.

A bondade consciente é uma conquista interna, espiritual. Ela só pode ser exercida plenamente quando não encobre desejos de manipulação.

Quem é realmente capaz de praticar o bem? Será que a bondade exterior, essa caridade que faz julgar a mim mesmo como bom e generoso, não esconde outras intenções e motivos?

O desejo obsessivo de praticar o bem pode ser sinal de carências profundas, vindas de outras fontes internas. Tanto isso é verdade que os instrutores do Centro de Voluntariado de São Paulo, durante a formação dos seus candidatos, insistem no perigo de o voluntariado querer substituir sua vida pessoal pela ação filantrópica. Há sugestão de limites de tempo de dedicação (cerca de duas horas por semana) e mesmo de intensidade afetiva na doação.E se, a pessoa quiser trabalhar com questões sociais durante um período maior de tempo, é dito com todas as letras  que o caminho certo para isso será se capacitar profissionalmente.

Uma pessoa só é capaz de praticar a bondade real depois de conhecer a si mesmo e aceitar seu lado mais sombrio, sua própria agressividade. Isso quer dizer que quem pratica o bem dessa forma consciente o faz de maneira saudável: não se julga “bom”, “santo”, “puro”, mas um ser que tem aspectos positivos e negativos, que é capaz de ser ciumento ou arrogante numa ocasião, mas também generoso e solidário em outra.

Jean-Jacques Rousseau dizia que para praticar a bondade é necessário cuidar de si e ter compaixão. Primeiro, é preciso estarmos íntegros, integrados a nossos aspectos negativos e positivos, nos aceitarmos como somos, para então nos dedicarmos aos outros.

A vontade de fazer o bem nasce da boa maternagem.  Essa interação se dá quando a mãe consegue estar de maneira profunda com seu bebê, formando um corpo para dois, uma alma para dois, uma mente para dois, até que a criança possa criar um mundo psicológico só seu para habitar. Daí nasce o respeito e o amor. Quando o bebê percebe que a mãe não é só dele, mas é seu “porto seguro” ele desenvolve a consideração pela mãe e dela exige apenas e tão somente a nutrição. Pode-se dizer que ele é cruel, egoísta, mas não mau. Com o tempo ele se percebe numa relação com o outro, aí a criança torna-se capaz de amar porque já provou a sensação amorosa nessa fusão inicial. Sentindo-se já separado da mãe, o bebê pode finalmente reconhecer nela a fonte de todo esse amor e prazer. Quando cresce, ser bom e amoroso torna-se então uma condição natural para ele,pois é plenamente capaz de entender esse sentimento já vivenciado com outras pessoas.

A compreensão sobre a bondade genuína chega quando nos tornamos capazes de amar e não vemos mais o mundo do mesmo jeito.  “O mal não existe, existe força não transformada (…). O mal é o bem em formação, o que ainda não está pronto. Não corrija o mal. Aumente o bem. Ele absorverá o mal que existe ao seu redor”.

 

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